Pois é, é isso mesmo. Este post não é brincadeira de 1º de abril. Soube há pouco por fonte confiável que o restaurante Aurora, sem dúvida um dos melhores de BH, foi fechado este ano. De fato, há tempos eu não ouvia notícias sobre o Mauro Bernardes, chef e proprietário da casa, mas pela sua natureza temperamental e inconstante (típica de verdadeiros artistas como ele, diga-se de passagem), nem me passou pela cabeça que seu sumiço tivesse essa explicação. Fiquei surpreso e triste. Soube que ele está prestando consultorias e que pretende abrir nova casa. E mais nada.
Gostava muito do trabalho do Mauro à frente do Aurora. A casa foi aberta na Savassi, onde funcionou de 1990 a 1996. Reaberta na Pampulha, em 2003, retomou posição de destaque na cena gastronômica de BH. Lá, tudo chamava a atenção, a começar pela trilha sonora, que ia de Chitãozinho & Xororó a Buddha Bar, passando por músicas do mundo inteiro, praticamente. Inclusive, quando no meio da noite começava a tocar a música tema do filme Zorba, o grego, isso significava que havia chegado o grande momento, a quebra de pratos!
Era uma verdadeira farra. Garçons saíam do salão com pilhas de pratos de gesso e os distribuíam aos fregueses. Com todo mundo embalado pelo álcool e pela música grega cada vez mais alta e rápida, o quebra quebra de pratos era realmente um momento divertido. E ninguém limpava nada; a noite terminava com o chão cheio não só de cacos, mas também de pétalas, já que os fregueses eram banhados com chuvas de flores durante a refeição. Uma cena curiosa. Jantar era, de fato, um programa no Aurora.
E tinha a comida, é claro. Os preços eram altos, mas a qualidade e criatividade dos pratos justificavam isso. Ou, se não justificavam, pelo menos não criavam aquela sensação de muito barulho por nada. Mauro tinha fama de chef esbanjador, no sentido de não ter dó de usar ingredientes caros, nem ficar dando um jeitinho de economizar em molhos, reduções e outros processos demorados, complicados ou dispendiosos. Circulavam pela cidade algumas lendas a respeito disso, como a de que ele reduzia uma garrafa inteira de vinho do porto a apenas algumas colheres de chá.
Os pratos dele realmente impressionavam. Uma de suas especialidades era o molho de jabuticaba, com o qual servia filé, cordeiro, peixe ou camarão. Sem sombra de dúvida, o melhor que já comi até hoje. Em alguns momentos Mauro se cansava da popularidade desse molho, embora nunca tivesse tirado esses pratos do cardápio. Mas ele não se limitava a a jabuticaba. Apreciador das cozinhas do mundo todo (sudeste asiático, em especial), ele mudava constantemente o cardápio da casa, ora inspirado na opulência europeia de trufas, açafrão e foie gras, ora absolutamente focado na simplicidade e em ingredientes brasileiros. As transições eram tão radicais que chegava a ser divertido constatá-las - e, mais ainda, ouvir as justificativas do chef, que sempre se deixou guiar pela emoção e fantasia na hora de compor um novo menu.
Um chef como ele faz falta na cena da cidade. Não só pelo talento dentro da cozinha, mas também pela postura fora dela. Quem o conhece sabe do que estou falando. Mauro é um amante do delírio e gostava de transmitir isso às pessoas. Seja explicando o porquê de um determinado ingrediente num prato, seja projetando mudanças malucas (a maioria não aconteceu) para o restaurante. Chegou a contratar como cozinheiro um rapaz que tentou assaltá-lo na rua. Ele se permitia conviver com uma boa dose de loucura no dia a dia. Por um lado isso é ótimo, mas por outro isso trazia certa instabilidade para a casa. No final das contas, tudo dava certo.
Por essas e por outras, o fechamento do Aurora é lamentável. Confesso que estou na expectativa de ver Mauro retornar, torço para que realmente abra uma nova casa. Precisamos de loucos assim.
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quinta-feira, 1 de abril de 2010
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